A ordem dos fatores
O problema todo está na ordem dos
fatores. Apesar da máxima de que ela não altera o produto, longe da matemática,
optar por agir em determinada ordem pode sim destruir o objetivo almejado
(consciente ou não). Premissas de uma boa gestão podem e devem ser usadas em
nosso dia-a-dia. Saber o que se pretende e pensar antes de agir são, na
verdade, fases de um bom planejamento, e um bom planejamento é pré-requisito
para o sucesso de qualquer empreitada.
Pode até parecer estranho, mas
trato aqui da forma displicente com a qual as pessoas costumam lidar com a
própria vida amorosa – não que eu considere este um tema tão importante assim,
mas as indagações sempre me vêm à mente quando observo “cabeçadas” milenares se
repetindo. Sempre a mesma introdução, a mesma forma, o mesmo método. Mas afinal
de contas, o que realmente estão procurando?
Passada a primeira juventude,
aquela das paqueras e o “viver como se não houvesse amanhã”, alguns homens e
mulheres passam a buscar uma espécie de relacionamento estável e, ao se
depararem com tentativas frustradas ou mesmo o insucesso das investidas, passam
a reclamar do comportamento do outro, sempre usando como justificativas a falta
ou o excesso das mais diversas e (in)desejáveis características. – Não existe
receita de bolo! Dizem alguns. – Não era pra ser! Exclamam outros. Mas o fato é
que, raramente, essas pessoas param para refletir a própria vida, tentando
olhar do alto, como quem está fora de toda a sistemática.
O comportamento mais usual é o de
socializar para tentar a sorte de encontrar alguém que agrade ao visual, olfato
e paladar – nesta ordem -, para, a partir daí, conhecer melhor o outro.
Barzinhos, boates e até igrejas são usados como prateleiras de onde se pretende
retirar o melhor produto. O problema dessa “compra” é que não é possível saber
o que estamos levando, mesmo estando o produto bem apresentado e dentro do
prazo de validade.
Sem pretensões de sugerir que fazendo
o caminho inverso o sucesso estaria garantido. Mas há de se convir que o
caminho inverso é o menos utilizado e, justamente por isso, não se sabe ainda o
impacto que poderia ter na maioria das relações.
Reflexão, ponderação
(planejamento!) requer raciocínio lógico. Lógico! Como analisar um evento, ou
vários deles, sem racionalidade? O afetivo pode e deve caminhar de mãos dadas
com o racional. Perdoem-me os defensores do “instinto Todo-Poderoso”, mas a
razão é uma exclusividade humana. Ou alguém já presenciou qualquer outro bicho
com crise de consciência?
Se as pessoas não pararem de
supervalorizar a sede visceral que sentem por um relacionamento amoroso, não
conseguirão enxergar no outro o que deveria satisfazer outros sentidos. E é
justamente nisso que se encontram os indícios para se optar seguir em frente ou
não no se relacionar com o próximo, independentemente do tipo de relação que se
pretenda. Qual o problema em viver a vida sem a expectativa romântica? Por que
não retirar dos olhos essas lentes tão embaçadas que tiram do foco qualquer
outra nuance da interação humana?
No primeiro contato entre duas
pessoas deveria estar sempre - e apenas - o interesse por conhecer o outro.
Quantas coisas podem surgir quando deixamos o universo de uma outra mente
invadir a nossa vida? Qual o sentido em buscar apenas o potencial romântico de
alguém? Isso é muito pouco perto do tudo infinito que dispomos para dar e
receber. Por este ângulo, o instinto é um grão de areia quando comparado com o
universo do intelecto humano.
Sendo assim, meus senhores e
minhas senhoras, alteremos a ordem dos fatores! Se o que se busca é um
relacionamento estável, amoroso ou não, deixemos à mostra nossas ideias, nossas
(in)conclusões, nossa visão de mundo. Se não houver conexão, ao menos saberemos,
com um grau de certeza satisfatório, o porquê.