terça-feira, 17 de outubro de 2017




Hipocrisia inconsciente

Há tempos tenho vontade de falar sobre a hipocrisia inconsciente que impregna o comportamento dos que discursam sobre diversidade. Talvez por conhecimento de causa – não própria -; ou por ser uma observadora voraz de ações cotidianas que passam despercebidas pela maioria.

Ouso afirmar que em todos – todos! – os ambientes ocorrem diferentes tipos de discriminação. Mas não estou falando das óbvias. Refiro-me às mais nocivas, e, por isso mesmo, mais eficazes em se perpetuar. E os que sofrem a intolerância são também os que a expressa. Pessoas de qualquer idade, grau de instrução ou classe econômica demonstram desde falta de paciência até hostilidades para com o próximo. Conseguem contradizer os próprios discursos sem nem ao menos perceber a insinceridade presente neles.

Se tirarmos a trave do olho, veremos e ouviremos, por exemplo, no trabalho, um colega homossexual sem paciência para ouvir a conversa lenta da copeira idosa; em casa, uma mãe cadeirante diminuindo o filho que não conseguiu passar na federal como os irmãos mais velhos; no comercial que prega diversidade, atores negros com traços caucasianos.


A verdade é que os representantes dessas minorias não tão em voga na mídia são discriminados não uma, mas várias vezes ao dia, e acabam eles mesmos aderindo a inverdades que, de tão repetidas, são canonizadas. Contudo, não somos obrigados a acompanhar a velocidade das mudanças da vida moderna. Introvertidos não são obrigados a sorrir para não desagradar. Religiosos não são obrigados serem a relativizarem dogmas só para não serem taxados de preconceituosos. O diferente não é necessariamente bom, mas tampouco ruim. Características de personalidade não devem ser vistas como “desqualidades”, mesmo que discordem do que hoje foi sacralizado como politicamente correto. Prefiro cometer o suicídio social de (me) expressar como sou a ter que compactuar com a relativização do verdadeiro preconceito que rege as relações atuais: concordar em fingir ser o que não se é.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017


Superação

Algumas muitas palavras sofreram alterações de significado que em muito prejudicam aquilo que sugerem. Preconceito, empoderamento são exemplos de como uma ideia pode desvalorizar a força de um verbete. Mas a bola da vez é ‘superação’. Para o Aurélio, suplantarobter uma vitória referente a. Para Houssais, vencer, ultrapassar e até remover. Mas (in)felizmente o caráter vivo da língua a faz refém de quem a usa, especialmente dos meios de comunicação, aparato onipotente quando a tarefa é formar opinião.

Atualmente, o vocábulo vende muita matéria quando usado para contar histórias da vida de todo e qualquer tipo de vítima. A plateia gosta de acreditar que é possível alcançar a felicidade, independentemente dos obstáculos enfrentados. Isso emociona, encanta, comove. E há, de fato, algo inspirador quando conhecemos uma história de vitória, seja ao ver um pedreiro sem pernas trabalhando sobre um telhado ou ouvir uma cantora surda entoar notas com perfeição. Mas o problema de se usar um termo a exaustão é que este corre o risco de ter sua aplicação generalizada a situações que ultrapassam seu sentido primário.

É praticamente impossível não topar com a temática. Personagens reais e fictícios permeiam programas de entretenimento mostrando o quão dignificante é ‘superar’ todo e qualquer tipo de mazela. A mãe que criou os filhos sozinha, o pianista que perdeu os movimentos de uma das mãos, o refugiado da guerra que perdeu a família na terra natal. Só que sobreviver a tais situações não tem nada de dignificante. Nem de bonito. Nem de alegre. Por um simples motivos: estas pessoas não escolheram passar por isso. Sobreviver a fatalidades não nos torna seres humanos melhores do que outros, em nada. No máximo, mais resistentes, mas não mais felizes. Há uma diferença colossal entre o sentimento de quem enfrenta os obstáculos da vida e de quem enfrenta os obstáculos de um esporte.

Os registros judaicos-cristãos têm um Jó, talvez, o personagem mais emblemático do assunto. Jó foi vítima de fatalidades horríveis e sucessivas. Perdeu toda a família, todos os bens e também a saúde. E, apesar de sua fé, não manifesta em sua fala nenhum sentimento de vitória por enfrentar tantos infortúnios. Ao contrário, até amaldiçoa o dia em que nasceu.

A associação da ideia de superação à vivência de tragédias pessoais, além de mostrar uma ideia equivocada do sentimento dessas pessoas, traz implícito um fenômeno preocupante: a relativização da violência. O importante é ser forte o bastante para não se abater frente às agressões que sofremos, independentemente da forma como estas se dão, quando, na verdade, deveríamos estar mais preocupados em evitar praticar a violência. Ao invés de ensinar a não violentar o próximo, a mídia ensina como superar as consequências da violência, como se a empatia fosse algo tão inatingível pela sociedade moderna que a única coisa a se fazer é aprender a juntar os cacos.

Ainda dentro da cultura judaico-cristã, encontramos forte representação dessa diferença. Os dez mandamentos ditam o que não se deve fazer de errado: não matar, não furtar, não prejudicar. Já as mensagens de auto-ajuda atuais ensinam como ter orgulho das próprias cicatrizes. A ser grato pelos infortúnios do passado. Convenhamos, isso não é apenas hipocrisia, é uma militância vazia e totalmente carente de reflexão. Não há sentido algum em sentir gratidão por um algoz ou se lembrar com alegria de dores agudas. Cicatrizes não nos deixam mais fortes. São apenas o que são: marcas - físicas ou psicológicas - de uma violência ou uma fatalidade.