Hipocrisia inconsciente
Há tempos tenho vontade de falar
sobre a hipocrisia inconsciente que impregna o comportamento dos que discursam sobre
diversidade. Talvez por conhecimento de causa – não própria -; ou por ser uma
observadora voraz de ações cotidianas que passam despercebidas pela maioria.
Ouso afirmar que em todos – todos!
– os ambientes ocorrem diferentes tipos de discriminação. Mas não estou falando
das óbvias. Refiro-me às mais nocivas, e, por isso mesmo, mais eficazes em se
perpetuar. E os que sofrem a intolerância são também os que a expressa. Pessoas
de qualquer idade, grau de instrução ou classe econômica demonstram desde falta
de paciência até hostilidades para com o próximo. Conseguem contradizer os
próprios discursos sem nem ao menos perceber a insinceridade presente neles.
Se tirarmos a trave do olho,
veremos e ouviremos, por exemplo, no trabalho, um colega homossexual sem
paciência para ouvir a conversa lenta da copeira idosa; em casa, uma mãe
cadeirante diminuindo o filho que não conseguiu passar na federal como os irmãos
mais velhos; no comercial que prega diversidade, atores negros com traços
caucasianos.
A verdade é que os representantes
dessas minorias não tão em voga na mídia são discriminados não uma, mas várias
vezes ao dia, e acabam eles mesmos aderindo a inverdades que, de tão repetidas,
são canonizadas. Contudo, não somos obrigados a acompanhar a velocidade das
mudanças da vida moderna. Introvertidos não são obrigados a sorrir para não
desagradar. Religiosos não são obrigados serem a relativizarem dogmas só para
não serem taxados de preconceituosos. O diferente não é necessariamente bom,
mas tampouco ruim. Características de personalidade não devem ser vistas como “desqualidades”,
mesmo que discordem do que hoje foi sacralizado como politicamente correto.
Prefiro cometer o suicídio social de (me) expressar como sou a ter que
compactuar com a relativização do verdadeiro preconceito que rege as relações
atuais: concordar em fingir ser o que não se é.

