sexta-feira, 29 de junho de 2018



PRATICAR A FÉ     
X    
SEGUIR UMA RELIGIÃO

Ao contrário do que possa parecer, as duas expressões não significam a mesma coisa. Durante toda a história da humanidade, as pessoas têm buscado nas religiões apoio para enfrentar as mazelas da vida. Procuram desesperadamente por alívio, afeto, compreensão, refrigério e por motivos que justifiquem essa árdua tarefa que nos é imposta: viver (afinal, ninguém pede pra nascer). Mas o que ocorre é que no meio do caminho o ser humano se perde em meio a rituais e dogmas que nada têm a ver com o verdadeiro culto àquilo que é sagrado. Talvez porque o que procuram não é, necessariamente, uma consequência natural da prática religiosa.

“Todo mundo precisa de uma religião!”; “A pessoa tem que ficar onde ela se sente bem.”; Sinto um arrepio na espinha toda vez que ouço frases assim. Se isso é seguir uma religião, estou bem longe de ser uma religiosa. Por outro lado, praticar a fé é algo bem mais raro de se ver por aí. Quem pratica a fé em Deus até pode estar em busca da felicidade e do bem estar – e não há nada de errado nisso -, mas essa não é a força que o move. Ter fé em Deus significa acreditar naquilo que não se pode ver; em promessas que não são para esta vida; em aceitar a dor como paga pelo bem que oferece. Praticar a fé não tem nada a ver com escolher uma denominação e segui-la ou “utilizá-la” semanalmente, tal qual se escolhe um hobbie ou um esporte. Praticar a fé é estar o tempo inteiro com a mente conectada com Deus, confiando que Ele guiará nossos passos, e tentando entender como podemos fazer o bem cada vez mais e melhor. Mas isso não implica em se ter uma “recompensa” emocional. Muito pelo contrário. Na grande maioria das vezes, o que a vida nos traz são mais provações, mais ingratidão.

Uma boa referência para ilustrar este conceito de fé cristã é o filme Entertaining Angels – The Dorothy Day Story (título em português: A celebração dos Anjos – A História de Dorothy Day). Os desafios encontrados pela protagonista para se manter firme na fé são imensos, até cruéis, e durante toda a trama ela se questiona até que ponto conseguirá permanecer vivendo segundo à vontade de Deus. Se desequilibra sobre a linha tênue que é o próprio bem-estar e o do próximo.

O fato é que o praticante da fé não escolhe uma religião para se servir dela. Ele vive a religião para servir a Deus e ao próximo. Há um abismo gigantesco entre esses dois conceitos, e que a maioria de nós ou não quer ou não se preocupa em ver e entender.

sexta-feira, 15 de junho de 2018


CARIDADE



Quando pensamos nessa palavra, a primeira imagem que surge é um bem feitor dando comida pra um mendigo ou, no máximo, voluntários doando seu tempo em ong e afins. Na verdade, exercer a caridade é algo bem mais difícil de concretizar do que supõe esse nosso senso comum.

“Boa disposição do ânimo para com todas as criaturas.”, diz o Aurélio na primeira definição que dá ao termo. Bom, se é assim - e se não é, deveria ser! -, tem muito filantropo por aí precisando atualizar o próprio conceito de caridade. E não só eles, mas toda a sociedade. A caridade não se limita apenas aos necessitados. Ela começa dentro de casa, na vizinhança, no colega de sala que senta ao lado, na relação chefe-subordinado. Não consigo ver coerência em servir sopão no fim de semana e preterir alguém de determinada atividade só porque tem déficit de atenção e a paciência é pouca. Ou em dar esmolas na rua e logo em seguida excluir da conversa o colega que mora na invasão porque não consegue pensar em um assunto em comum.

Me passa longe a ideia de receita de bolo para relações interpessoais, principalmente quando consideramos as infinitas variáveis. Mas o vício de observar me traz aos sentidos esses paradoxos percebidos durante o dia, quase todos os dias.

A caridade cristã engloba sim todo o movimento de solidariedade econômica, mas ela deixa de existir se não começar de dentro pra fora. Pra tentar ajudar o filho do vizinho, temos que nos certificar antes se nossos próprios filhos não precisam de ajuda. Por isso, tenha mais paciência quando sua avó pedir ajuda pela enésima vez para ajeitar o cabelo. Arranje tempo para explicar aquele assunto tão simples para quem (você supõe) já deveria ter entendido. Não pare de ouvir a explanação do coleguinha só porque ele gagueja um pouco.

É bem provável que a maioria de nós não tenha consciência de que estamos negando ajuda às pessoas mais próximas de nós.  Mas se você chegou até aqui, vale a pena parar um pouco e refletir...