Superação
Algumas muitas palavras sofreram alterações de significado que em muito prejudicam aquilo que sugerem. Preconceito, empoderamento são exemplos de como uma ideia pode desvalorizar a força de um verbete. Mas a bola da vez é ‘superação’. Para o Aurélio, suplantar, obter uma vitória referente a. Para Houssais, vencer, ultrapassar e até remover. Mas (in)felizmente o caráter vivo da língua a faz refém de quem a usa, especialmente dos meios de comunicação, aparato onipotente quando a tarefa é formar opinião.
Atualmente, o vocábulo vende muita matéria quando usado para contar histórias da vida de todo e qualquer tipo de vítima. A plateia gosta de acreditar que é possível alcançar a felicidade, independentemente dos obstáculos enfrentados. Isso emociona, encanta, comove. E há, de fato, algo inspirador quando conhecemos uma história de vitória, seja ao ver um pedreiro sem pernas trabalhando sobre um telhado ou ouvir uma cantora surda entoar notas com perfeição. Mas o problema de se usar um termo a exaustão é que este corre o risco de ter sua aplicação generalizada a situações que ultrapassam seu sentido primário.
É praticamente impossível não topar com a temática. Personagens reais e fictícios permeiam programas de entretenimento mostrando o quão dignificante é ‘superar’ todo e qualquer tipo de mazela. A mãe que criou os filhos sozinha, o pianista que perdeu os movimentos de uma das mãos, o refugiado da guerra que perdeu a família na terra natal. Só que sobreviver a tais situações não tem nada de dignificante. Nem de bonito. Nem de alegre. Por um simples motivos: estas pessoas não escolheram passar por isso. Sobreviver a fatalidades não nos torna seres humanos melhores do que outros, em nada. No máximo, mais resistentes, mas não mais felizes. Há uma diferença colossal entre o sentimento de quem enfrenta os obstáculos da vida e de quem enfrenta os obstáculos de um esporte.
Os registros judaicos-cristãos têm um Jó, talvez, o personagem mais emblemático do assunto. Jó foi vítima de fatalidades horríveis e sucessivas. Perdeu toda a família, todos os bens e também a saúde. E, apesar de sua fé, não manifesta em sua fala nenhum sentimento de vitória por enfrentar tantos infortúnios. Ao contrário, até amaldiçoa o dia em que nasceu.
A associação da ideia de superação à vivência de tragédias pessoais, além de mostrar uma ideia equivocada do sentimento dessas pessoas, traz implícito um fenômeno preocupante: a relativização da violência. O importante é ser forte o bastante para não se abater frente às agressões que sofremos, independentemente da forma como estas se dão, quando, na verdade, deveríamos estar mais preocupados em evitar praticar a violência. Ao invés de ensinar a não violentar o próximo, a mídia ensina como superar as consequências da violência, como se a empatia fosse algo tão inatingível pela sociedade moderna que a única coisa a se fazer é aprender a juntar os cacos.
Ainda dentro da cultura judaico-cristã, encontramos forte representação dessa diferença. Os dez mandamentos ditam o que não se deve fazer de errado: não matar, não furtar, não prejudicar. Já as mensagens de auto-ajuda atuais ensinam como ter orgulho das próprias cicatrizes. A ser grato pelos infortúnios do passado. Convenhamos, isso não é apenas hipocrisia, é uma militância vazia e totalmente carente de reflexão. Não há sentido algum em sentir gratidão por um algoz ou se lembrar com alegria de dores agudas. Cicatrizes não nos deixam mais fortes. São apenas o que são: marcas - físicas ou psicológicas - de uma violência ou uma fatalidade.

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