quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Amar a Deus sobre....

Amar a Deus sobre....


Quando criança, me via como alguém muito indigna de Deus. Escutava as orações da minha avó, com citações de vários salmos e passagens da Bíblia, e achava quase impossível atender a vontade de Deus. Entre os ensinamentos que absorvi estavam os Dez Mandamentos. Não sei se por ironia ou tática pedagógica, Deus os citou a Moisés colocando o mais difícil como o primeiro: "Amar a Deus sobre todas as coisas". 

Para quem não é muito ligado em curtir um sentimento profundo por dinheiro ou coisas inanimadas, sobram duas opções interpretativas:

1. "Amar a Deus mais do que qualquer outra pessoa" - o que para uma criança, por exemplo, é algo impensável: - Como assim "amar  alguém mais do que minha mãe? Eu nem conheço Deus!"

2. "Amar a Deus mais do que a si mesmo". Aqui já fica mais fácil entender um pouco o que Deus espera com este mandamento. Porém, amar alguém mais do que a si mesmo requer muito sacrifício, o que, na maioria das vezes, não estamos muito dispostos a fazer.

Refletindo esses dias sobre o assunto, ainda tentava encontrar uma explicação do por quê é tão difícil amar a Deus em primeiro lugar. Por que é tão desanimador acordar cedo aos fins de semana para ir trabalhar na igreja? Por que é tão fácil arrumar uma justificativa "plausível" para nos ausentarmos dela? Por que dizer "não" para o marido/esposa/filhos/mãe é tão penoso quando temos que escolher entre estar com eles ou servir a Deus (por servir, leia-se amar. "Se vós me amais, obedecereis aos meus mandamentos". Jo 14:15.

Para tentar responder minhas próprias perguntas, comecei a me lembrar do que mais nos aproxima de outros seres humanos: o toque. O ser humano tem textura, temperatura, cheiro, massa, enfim, uma imagem concreta, feita de carne e osso e capaz de interagir. É no poder do tato que nos fazemos terra fértil para nascer o amor. 

Outro ponto interessante é a maneira como enxergamos a Deus. Em geral, o colocamos tão alto em poder e hierarquia que é difícil nos imaginar, sentados ao lado dele, trocando uma ideia, assistindo Netflix ou jogando video-game. Além disso, o entendemos como um ser supremo, capaz de amar a todos, incondicionalmente  - fato incontestável -, e é aí que surge uma falácia inconsciente em nossas mentes. Achamos que Deus está ocupado demais com coisas bem mais importantes e, obviamente, não nos dará atenção especial, principalmente se nosso problema for tão insignificante ante às mazelas do mundo. Seria como querer que aquele professor que mais admiramos nos tratasse com a mesma intimidade e atenção que a nossa mãe. E não adiante dizer que nunca pensou assim. Eu disse que é inconsciente, lembra?

O fato é que nessa sistemática, acaba sendo natural amarmos quem nos dá atenção exclusiva (pelo menos, pensamos que é), que se faz presente em corpo, voz, suor e olhares. Como amar a Deus mais do que aquele abraço de aeroporto? Como amar a Deus mais do que nosso pai gritando "gooool" e nos jogando para cima em final de campeonato? Como amar a Deus mais do que a imagem do seu filho de dois meses mamando no seu peito?

Não tenho aqui, caros irmãos, a pretensão de dar respostas a estas perguntas, até porque acredito que cada um de nós tem um modo individualizado de lidar com estes desafios. Proponho apenas refletirmos sobre o assunto. Quem sabe não acabamos por descobrir um "atalho" de comunicação com Deus? Um caminho diferente que nos possibilite criar mais intimidade com Ele? Com certeza o êxito de se conseguir obedecer ao primeiro mandamento se tornaria mais próximo. 

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